Rogério Rocco: Crueldade lucrativaAdvogado e analista ambiental Rio - Registros históricos apontam que, a partir de 1511, milhares de papagaios, pássaros diversos e macacos foram retirados do Brasil por caravelas portuguesas e piratas de outras nacionalidades. Era o início do tráfico internacional de animais brasileiros, atividade econômica que rende lucros significativos há quase 500 anos. O Brasil se consolidou como um dos maiores fornecedores de animais para o tráfico, tendo em vista a grandiosa diversidade biológica de nosso território. E os pássaros aparecem como as maiores vítimas dessa brutal cultura antropocêntrica. Dos animais apreendidos de traficantes no Rio de Janeiro nos últimos anos, cerca de 90% eram formados por pássaros, sobrando uma pequena cifra para mamíferos e répteis. Do lado supostamente lícito da atividade, existem mais de 40 mil criadores de pássaros credenciados junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) apenas no Estado do Rio. Os números impressionam. Se cada criador possuir 10 pássaros — uma tímida hipótese —, serão 400 mil pássaros engaiolados legalmente no estado. E, se o Ibama fiscalizasse um criador por dia — uma estimativa otimista —, levaria 200 anos para vistoriar os atuais, contanto que não fossem autorizados novos criadores. Enquanto isso, uma legião de pessoas cultiva e renova a cruel cultura do aprisionamento imoral de pássaros, expondo seu sadismo e seu prazer egoísta em gaiolas penduradas nas janelas, portarias e praças da cidade, sendo que alguns ainda passeiam com elas — sem perceber que carregam o troféu da estupidez humana.
Escrito por verdeebicho às 06h49
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